"Transforme a prática em ambiente de reflexão!"

“Tá difícil conversar ultimamente…”

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O título parece dizer tudo, só que não… (rs)! A verdade é que escolhi essa expressão depois de tê-la ouvido várias vezes em diferentes, e recentes, viagens que fiz para minhas palestras. Uma constatação crítica, sempre em clima de desabafo!

Nas últimas semanas visitei lugares e culturas diferentes. Em cada uma dessas idas e vindas conheci diversas pessoas. Foram taxistas, comissárias de bordo, recepcionistas, garçons e os próprios participantes dos encontros de aprendizagem em que fui mediador. Cada qual com um olhar pessoal sobre nossa realidade compartilhada, que acabo conhecendo por conta desta minha natural curiosidade e pelo contínuo exercício da escuta compreensiva. Em comum, ao final de cada diálogo ouvi um “obrigado” e o desabafo de que “tá difícil conversar ultimamente…”.

Quando questionei qual a natureza desta dificuldade alguns relataram que as pessoas já não ouvem mais, parecendo sempre desinteressadas, enquanto outros disseram que os diálogos têm se tornado muito superficiais. Fiquei intrigado e decidi fazer um exercício de observação e escuta conscientes, aproveitando meu constante trânsito em aeroportos.

Aproveitei meu retorno de uma viagem ao Nordeste, mas confesso que difícil mesmo foi encontrar pessoas conversando nos aeroportos por onde passei. Sem querer cair no movediço território do óbvio, foi preciso fugir da presença de televisores e das torres para recarregar telefones celulares, só então teria uma remota chance de encontrar uma conversa em andamento. Foi assim que escolhi uma área um pouco mais afastada, abri o livro que trazia comigo e torci pela oportunidade de ser testemunha ocular de uma conversa.

Demorou um pouco, mas dois senhores vieram se sentar na fileira de poltronas atrás de mim e, contrariando o ditado popular que orienta nunca se discutir política, futebol ou religião, começaram a falar a respeito das últimas notícias vindas “da capital”. Um deles, referia-se à presidente como “aquela senhora”, inflando a ira do outro.

Estranho foi imaginar que, pela maneira como se referiam a fatos passados, os dois pareciam se conhecer há muito tempo, tornando o debate ainda mais acirrado. Percebi que as opiniões radicais os impedia de ouvir o argumento um do outro. Quando o voo deles foi anunciado, seguiram ainda discutindo, sem terem chego perto sequer de um acordo.

Fiquei ali sentado por algum tempo refletindo sobre a forma como as opiniões radicais daqueles senhores influenciava tanto a amizade entre os dois quanto o processo de amadurecimento e aprendizagem, aparentemente estagnado.

Decidi tentar a sorte tomando um café. Quase me arrependi quando descobri que ao lado das mesas havia um grande televisor. Menos mal que estava num canal de jornalismo, porém, as notícias traziam pouca informação de fato, sem muita profundidade, fazendo-me pensar na diferença entre aqueles factoides e os artigos investigativos que gosto de ler, ou mesmo os textos de jornalismo literário que exploram o antes e depois de cada notícia, trazendo contexto ao ocorrido.

Triste, mas ainda fascinante, foi reconhecer que as pessoas que acompanhavam a transmissão do jornal comentavam cada notícia com a mesma superficialidade, o que se percebia em seus argumentos míopes, pontos de vista parciais, sem quaisquer referências. E tão logo o apresentador anunciava outra manchete também os diálogos se voltavam para o novo assunto, em detrimento do tema anterior. Passei algum tempo observando esta dinâmica de troca de assuntos e da simples troca de opiniões, sempre parciais.

Quando meu voo foi chamado, segui para a fila de embarque e, rodeado por pessoas, descobri outro elemento fascinante dessas novas dinâmicas conversacionais. Cada grupo parecia estar envolvido em seu próprio diálogo, porém, muitos assuntos se repetiam de maneira curiosa o que me fez lembrar dos Top Trends (expressão que defini as “principais tendências”) das redes e canais de notícias virtuais. Ninguém parecia perceber, mas estavam falando das mesmas coisas, meramente repetindo uma série de informações com pouca ou nenhuma reflexão.

Já sentado em meu assento, passei a tomar notas a respeito das minhas observações, sobre o padrão das opiniões radicais que parecem impedir que os argumentos expostos na conversa sejam verdadeiramente apreciados, os argumentos míopes que denotam a ausência de um aprofundamento e do pouco uso de referências ou fontes de conhecimento nos diálogos, além da repetitividade dos top trends. Imaginava uma intervenção, alguma forma de provocar uma transformação nesta realidade quando a senhora ao meu lado perguntou sobre o que eu estava escrevendo… Lembrei que a palavra conversa vem da expressão latina conversatio, que pode ser compreendida como “junto, voltar-se para…”!

Virei-me na sua direção e contei a história de meus diálogos e da experiência de observação consciente que havia acabado de fazer. Ela me fez algumas perguntas, as quais respondi trazendo algumas referências, citando alguns livros que já li e outras experiências passadas.

Quando aterrissamos ela me agradeceu pela “verdadeira conversa” e pelas dicas, inclusive de filmes e livros, que havia anotado. Aproveitei para lhe perguntar qual lição ela levaria consigo, ao que ela respondeu:

— Engraçado você perguntar. Percebi que uma verdadeira conversa é aquela da qual você sai se sentindo diferente, como se tivesse ganho novos óculos e agora pudesse ver tudo de uma maneira ainda mais clara. Não é que eu concorde com tudo o que você disse, mesmo que eu concorde… — ela riu. — Mas a verdade é que muito do que eu já pensava ganhou uma nova perspectiva.

E ali estava a minha grande lição…

“O primeiro sinal de que você está plenamente presente numa conversa é quando você percebe diversas oportunidades de contribuir com o ‘outro’ através de seus talentos.”

E você, como tem enriquecido suas conversas?

 

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