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“Palestra motivacional, sim senhor!”

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Palestra Motivacional perspectiva-futuro-motivacaoDesde que me lembro, quando explico a alguém sobre meu trabalho como filósofo e mediador em experiências de aprendizagem, na maioria das vezes acabo ouvindo a clássica afirmação, disfarçada de pergunta: “Ah, então você faz palestra motivacional, não é!?”.

Confesso que por algum tempo isso me incomodou, talvez pela ideia negativa que grande parte das pessoas trazem sobre a proposta dessa abordagem. Entretanto, procuro argumentar que a motivação se traduz no ato de apresentar motivos que incitam, que provocam pessoas a pensar ou agir de maneira diferente do habitual. Engraçado, mas quando são levados a pensar por essa perspectiva, muitos críticos do termo palestra motivacional se reconhecem como pessoas que também buscam motivar outras, o tempo todo!

Em 2014, quando o cenário econômico e político prenunciava que 2015 seria um ano ainda mais complexo e desafiante (como de fato o foi!), fui convidado a realizar uma palestra motivacional para um grupo com cerca de 200 colaboradores. Lembro da ligação telefônica que recebi, quando o gerente de Capital Humano e responsável pela iniciativa solicitou que eu fosse até à empresa, pois nem todos estavam “convencidos” de que essa seria a “solução dos problemas”. Coloquei-me à disposição, então marcamos minha visita.

Dois dias depois, cheguei à empresa. A reunião ocorreu em torno de uma grande mesa. Fui colocado na cabeceira, de frente ao presidente da organização, sentado na outra extremidade. Os outros seis participantes se dividiram em dois lados, dois grupos distintos: os favoráveis (dois) e os contrários (quatro)! Até hoje, rimos juntos daquela reunião, lembrando da cena e dO Grande Debate que se estendeu por quase meia-hora.

Na oportunidade tomei nota dos argumentos e comentários dos gestores, buscando conectar cada uma das observações. Alguns consideravam ser imprudente falar de motivação num cenário tão incerto, enquanto outros diziam ser este o momento certo para o diálogo. Havia a ideia de que seria difícil falar de “coisas boas” considerando todos os “problemas enfrentados nos últimos meses”. Argumento com o qual concordavam os favoráveis, propondo que fosse abordado apenas os “possíveis cenários futuros”… E assim seguia o debate, sem um consenso.

De repente, o presidente olhou para mim, fazendo um sutil sinal com a cabeça e, olhando para sua equipe, disse:

— Certo, mas por que mesmo vocês trouxeram o Giuliano até aqui? Quando é que vocês vão perguntar a opinião dele? — curvou-se na minha direção, unindo as mãos sobre a mesa e permanecendo em silêncio, apenas com um sorriso no rosto.

A sala toda ficou quieta. Olhei minhas anotações e, de volta ao grupo, percebi que já era hora de eu falar algo…

Expliquei que os motivos que levam alguém a pensar e agir diferente podem ser os mais diversos, dependendo do perfil de cada pessoa. Alguns indivíduos “funcionam” muito bem sob pressão, enquanto outros precisam de tempo para refletir e planejar. Há pessoas movidas por recompensas, um estímulo extrínseco (externo), outras por desafios, algo que lhes encoraja a superar a si próprias, uma forma de incentivo intrínseco (interno).

— Bem, agora quero apenas compartilhar com vocês minha perspectiva sobre o tema, o que, aliás, pode ser considerado como a essência para motivar pessoas, pois os motivos que oferecemos para provocar a ação do outro se baseiam sempre em novas perspectivas…

— Como assim!? — quis saber o gerente de novos projetos, uma das pessoas contrárias à palestra.

Assumi um papel mais professoral, explicando que toda perspectiva é o modo através do qual representamos ou vemos algo, um fato ou cenário, envolvendo a criação de um significado. Portanto, para se motivar pessoas, é preciso compartilhar novas perspectivas sobre a jornada de um grupo, equipe ou organização, considerando seu passado, presente e futuro.

O real propósito da palestra motivacional

É comum falarmos em “novas perspectivas” em relação ao futuro, lançando metas ou projetando cenários otimistas, o que é certamente estimulante, desde que consigamos estabelecer uma relação entre este futuro almejado (para não dizer “sonhado”) e a contribuição efetiva das pessoas, a maneira pela qual seus talentos fazem parte deste propósito. É imprescindível que cada indivíduo se veja como protagonista no cenário para o qual nos lançamos, enquanto equipe e organização.

— No entanto, para que as pessoas possam se empoderar em relação ao futuro, é fundamental criar novas perspectivas sobre nosso passado e presente enquanto organização… — mal pude concluir a frase…

— Como criar uma perspectiva em relação ao passado da empresa, se o passado já aconteceu!?

Expus ao pequeno grupo que, se toda perspectiva é o modo pelo qual vemos algo e lhe damos significado, já era hora de ressignificar os fatos acontecidos, reconhecendo os aprendizados, promovendo também uma visão de autorreconhecimento por parte da própria equipe. Portanto, trata-se de resgatar a história da organização mostrando suas melhores práticas, as iniciativas que nos trouxeram até o momento presente, de onde seguimos na jornada em direção ao futuro (um trabalho assim poderia ser chamado de “palesta motivacional”?).

— E o presente!? — quis saber agora o presidente.

— Bem, o presente é o alicerce para a construção do futuro, assim como o passado se tornou a fundação de onde chegamos. É preciso dar a ele [o presente] uma intenção clara, demonstrando às pessoas o sentido daquilo que realizamos hoje, para que tenham consciência do impacto de cada atividade — respondi, então acrescentei a seguinte reflexão.

“Poucas pessoas tem a consciência do valor histórico que seu presente terá no futuro. Portanto, poucos dão a devida atenção às suas ações!”

— E você consegue fazer tudo isso em uma hora e meia? — perguntou o gerente de Capital Humano.

Respondi que seria um grande bate-papo, um convite à reflexão, um novo olhar sobre a jornada compartilhada, por novas perspectivas, e que o importante num papo inspirador é trabalhar acreditando no potencial das pessoas!

— Definitivamente, você faz palestra motivacional, sim senhor! — foi o comentário do presidente no encerramento da reunião.

A proposta foi aprovada e o papo inspirador (ou palestra motivacional) aconteceu em outubro de 2015. De lá para cá realizei algumas outras mediações, com equipes de trabalho específicas, mas sempre encontrando os participantes pelos corredores, ouvindo histórias durante um rápido café.

Recebi uma nova ligação, com um novo convite para mais uma “palestra motivacional”. O cenário mudou, pois o que era futuro se tornou presente, agora a empresa deseja ampliar suas perspectivas e, mais uma vez, tenho a oportunidade de fazer parte da jornada de pessoas e equipes, motivando-as, promovendo pleno potencial!

E você, como vem motivando as pessoas ao seu redor? Quais as perspectivas que você compartilha!? Você também está promovendo pequenas palestras motivacionais?

Rafael Giuliano,
compartilhando perspectivas que motivam novas formas de pensar e agir!

One comment

  1. O seu desconforto temporário em relação ao termo “palestra motivacional” deve ter sido causado pelo formato que este tipo de palestra tomou na mão de alguns palestrantes. Não desmerecendo o trabalho de alguém, muitos destes profissionais usam fórmulas prontas e valem-se de um recorte de frases de outrem, vídeos, figuras e piadinhas para quebrar o gelo. No final, é bacaninha, mas sem tocar a essência dos participantes. E, claro, isso é totalmente diferente do seu trabalho, Rafael, que tanto cuidado tem em extrair das pessoas os motivos para que se motivem 😉

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