"Transforme a prática em ambiente de reflexão!"

Manifesto da Conscienciologia Humanista

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Escrever um manifesto requer um exercício perspicaz de significação, levando-se em conta os sentidos e impactos de cada palavra e argumento, a começar pela proposta da própria expressão “manifesto”, cujo conceito estabelece uma “declaração formal”, que transmita tanto as opiniões a respeito de um determinado tema quanto as intenções destas, e são sobre os pilares destas duas dimensões, da opinião e da intenção, que apresento, e proponho, a perspectiva filosófica e pragmática da Conscienciologia Humanista.

Nos últimos dez anos tenho me dedicado ao contínuo trabalho de observação, pesquisa e experimentação interventiva junto aos mais diferentes grupos, apreciando suas dinâmicas de interação, de maneira a poder mediar experiências de aprendizagem, diálogos de criação colaborativa e também a resolução dos mais diversos conflitos profissionais, pessoais, sociais e até familiares, sempre com o propósito de promover o pleno desenvolvimento de pessoas e organizações humanas.

Durante todo esse tempo, procurei agregar ferramentas e técnicas que pudessem contribuir com esse propósito, constituindo um método para mediação de diálogos que fosse multiplicável e, acima de tudo, que pudesse ser transmitido às pessoas, de maneira a incentivar a autonomia e o protagonismo, conscientizando-as de seu potencial de autorrealização. Hoje, posso afirmar que essa missão foi cumprida, estabelecendo não um “método”, mas os princípios de uma nova concepção filosófica que evoca a tomada de consciência sobre nossa própria essência humana: a Conscienciologia Humanista.

Sua denominação parte da acepção propositiva de duas expressões:

  1. Conscienciologia: essa concepção parte da união entre a palavra consciência, cujo sentido envolve o conhecimento ou a percepção que o sujeito tem do que se passa consigo mesmo e com o outro, além da ideia de “bom senso”, também nela contida, relacionando-a ao conjunto de valores morais que definem nossos julgamentos e ações. O sufixo logia define um campo de estudo, uma área de conhecimento a ser explorada. Portanto, é um termo que se presta ao estudo contínuo sobre os aspectos da tomada de consciência do indivíduo acerca de sua realidade e a corresponsabilidade pela transformação desta (em proposital oposição ao verbete relacionado ao movimento pseudocientífico, dissidente do espiritismo);
  2. Humanista: parte de uma proposta conceitual que amplia, de maneira apreciativa, a acepção do humanismo contemporâneo e propõe o humano como sendo o criador de seu próprio ser. Esse “ser” agora é visto como corresponsável pela geração de sua própria realidade e também pela construção do outro, distanciando-se significativamente da visão clássica que o tomava como “valor supremo” ou a “medida de todas as coisas” e estabelecendo-o como ator e partícipe nas transformações do mundo à sua volta.

A Conscienciologia Humanista se propõe a ser uma nova abordagem orgânica e sistêmica para a mediação apreciativa das relações humanas em prol do pleno desenvolvimento de indivíduos e de sua coletividade. Para tanto, lanço mão das descobertas e reflexões que materializam a dimensão de opinião, defendida neste manifesto.

Inicialmente, apresento os três Princípios Fundamentais para a tomada da consciência de nossas relações humanas, concebidos a partir das dinâmicas e interações observadas nos ambientes organizacionais e de aprendizagem, além daqueles de convívio social e familiar, indicando suas proposições pragmáticas:

  • Apreciação do Humano: estabelece o resgate do valor das pessoas e a crença no potencial humano de transformar a realidade individual e coletiva;
  • Intencionalidade: provoca a escolha consciente de atitudes e de uma comunicação que revelem o significado e deem sentido às interações e intervenções dos indivíduos com sua própria realidade e com a dos outros;
  • Transcendência: estimula a superação das conjunturas circunstanciais do ser humano, sua realidade e limitações, incentivando-o a alcançar seu pleno potencial.

A partir da prática desses Princípios Fundamentais, exercida nas experimentações interventivas, foi possível estabelecer também os Princípios Relacionais, apontando na direção de atitudes mais apreciativas para as interações e intervenções humanas:

  • Apreciação do Humano + Intencionalidade = Cooperação: quando reconhecemos nosso próprio valor, e também o do outro, relacionando-os de maneira intencional, passamos a reconhecer o potencial de nos realizarmos, superando quaisquer circunstâncias limitantes através da cooperação;
  • Intencionalidade + Transcendência = Propósito: no momento em que relacionamos nossa intenção com o objetivo de transcender aquilo que se apresenta como um limite, passamos a dar um novo sentido à vontade, estabelecendo um propósito que nos coloca em movimento, na direção daquilo que se almeja e se tem potencial para alcançar;
  • Transcendência + Apreciação do Humano = Ressignificação: transcender a ideia de valor que se tem de si mesmo e do outro requer um exercício consciente de ressignificação, estabelecendo novos significados para o que ouvimos e percebemos, tanto quanto para o que compartilhamos e inspiramos.

É certo que cada um desses Princípios Fundamentais e Relacionais requer uma extensa abordagem conceitual, porém, diferentemente da ideia de uma exposição apenas teórica, a partir deste manifesto outros textos são apresentados, trazendo uma série de relatos, tomando minhas experimentações interventivas como referências para um exercício de aprendizagem significativa, a fim de que você, meu interlocutor, possa transformar suas próprias práticas em ambiente de reflexão.

A opinião manifestada até aqui compreende, à luz da Conscienciologia Humanista, uma crítica provocativa, estabelecendo a necessidade de interações e intervenções mais conscientemente humanas e apreciativas. Há ainda a proposta de ser mais do que simplesmente um apontamento de erros ou situações de risco, que apenas reforçaria o cenário de crise ou de “miserabilidade” que advém da redução do tempo que dedicamos à reflexão, como apontado certa vez pelo filósofo e escritor Mario Sergio Cortella. Isso nos leva à dimensão de intenção deste manifesto.

A Conscienciologia Humanista surge como uma proposta pragmática, abrangendo significados concretos e práticas aplicáveis e reforçando o conceito da prática como ambiente de reflexão. A intenção é promover uma conscientização humana, relacionando cinco diferentes Dimensões da Tomada de Consciência:

  • Reflexiva-Cognitiva: do Interior para o Interior do ser, na maneira como tratamos nossos pensamentos e conclusões na busca por compreender a nós mesmos e aos outros, nossos códigos de significação;
  • Comunicacional: do Interior para o Exterior do ser, que envolve a forma pela qual expomos nossas ideias, crenças e valores, externalizando nossos códigos de significação ao outro da relação;
  • Cultural: do Exterior para o Interior, na forma como assimilamos e interiorizamos os estímulos externos da realidade que nos rodeia, orientando-nos no processo de construção de nossa própria identidade, a partir dos significados que damos àquilo que recebemos;
  • Física: em relação ao próprio corpo e ao corpo do outro, na descoberta das sensações e estímulos, sensibilizando-nos em relação aos papéis que desempenhamos também na construção do outro;
  • Espacial: sobre o ambiente ao seu redor e os elementos que o compõem, envolvendo nossa percepção de pertencimento e inclusão e estabelecendo ainda os papéis para o protagonismo interventivo.

Essas dimensões são como pontos de partida para o processo de conscientização, pautado no exercício empírico que estabelece, mais uma vez, a prática como ambiente de reflexão, num ciclo contínuo de interação, intervenção e incentivo, em que cada indivíduo é partícipe e corresponsável na construção da realidade que compartilha.

Aqui se revela a intenção máxima deste manifesto e, por conseguinte, também da Conscienciologia Humanista, apresentando seus Princípios Pragmáticos como forma de estabelecer um convívio mais consciente, humano e apreciativo:

  • Presença Plena: disposição para estar consciente e plenamente presente em cada encontro, diálogo e ação, envolvido e engajado, focando na intenção de contribuir e cooperar para o propósito compartilhado;
  • Escuta Compreensiva: atenção àquilo que é compartilhado pelo outro, com a predisposição de valorizá-lo, exercendo a empatia, tanto cognitiva quanto emotiva;
  • Ressignificação: ato de rever os significados que damos ao que nos é oferecido, seja através de uma atitude ou de uma comunicação, exercendo o poder de estabelecer, de maneira consciente, os sentidos que constituem nossa realidade;
  • Comunicação Assertiva: falar, demonstrar e compartilhar com intenção assertiva e apreciativa, comprometendo-se a inspirar o melhor no outro, através de palavras e atitudes;
  • Protagonismo Interventivo: assumir o papel de ator corresponsável pelo próprio pleno desenvolvimento, bem como o do outro, e da construção de uma realidade compartilhada.

Este manifesto é mais do que a apresentação das bases de um filosofema. É essencialmente um convite, um chamamento às pessoas que reconhecem a importância da insatisfação, da inconformidade, e que buscam se lançar a um propósito que transcenda a realidade que nos foi, e é, imposta.

A todas estas pessoas, estes verdadeiros seres humanos livres, sejam bem vindos à Conscienciologia Humanista.

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