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Livro II – Primavera Capítulo I – O Museu

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post-estacoes-consciencia-escultura-degas-bailarinaLivro II – Primavera :: Capítulo I – O Museu

A sala começou a ser iluminada por raios de Sol ainda tímidos, passando pelas frestas da cortina, abertas pelo balanço do ar frio da manhã de sábado. Consultou o relógio, lembrando do compromisso que não havia aceito, mas também não tinha se negado. Levantou, foi até a cozinha e preparou uma xícara de café. Foi até a sacada, abriu as cortinas e sentiu o vento frio que vinha do jardim. Naquela manhã não havia o balé de carros, nem mães ou pais cheios de bolsas e pastas levando crianças ainda sonolentas em seus uniformes escolares.

Deixou de lado o exercício de observação e se aprontou como se tivesse pressa. Imaginava que Khalil jamais se atrasaria, então decidiu ir mais cedo, chegar antes, surpreende-lo quando chegasse, só para conseguir falar primeiro e, talvez, poder fazer as perguntas para as quais deseja algumas respostas.

*  *  *

Quando chegou ao espaço do museu, passavam alguns minutos das oito horas da manhã. Sentou num dos bancos da área externa, sentindo o frio gelar suas mãos, mesmo nos bolsos. Pôs os fones de ouvidos e buscou por algumas músicas diferentes.

Já àquela hora havia todo o tipo de gente, de todas as idades, com cachorros das mais diversas raças e tamanhos. De repente começaram a surgir também pessoas sem cães. Alguns pareciam gostar do frio como companhia para leitura. Outros chegavam em grupos, sentavam sobre grandes mantas e empunhavam violões e outros instrumentos musicais de origem duvidosa. Vicente observava tudo de longe, indiferente graças aos seus fones de ouvido.

De repente percebeu a chegada de uma mulher de bicicleta. Ela vestia um chamativo sobretudo de lã vermelha, com um design diferente, lembrando uma casaca antiga de algum velho filme europeu, com grandes botões dourados e calças de veludo preto. Os cabelos presos num enorme coque, com diversos fios soltos ao vento, lembravam uma cantora de jazz, ou algo assim. A própria bicicleta já era por si só um chamariz. Um modelo muito antigo, mas toda reformada.

Vicente a acompanhou com o olhar até que ela parasse num bicicletário. Ele a viu prender a bicicleta e tirar da cesta junto ao guidão uma grande bolsa. Ficou imaginando como alguém poderia ter a coragem de sair de casa vestida daquela forma e com aquele penteado, levando à tira colo uma bolsa tão grande. Foi quando percebeu que a estranha caminhava na sua direção. Conferiu se os fones estavam nos seus lugares, aumentou o volume, firmou as mãos no interior dos bolsos e passou a olhar para a frente, numa linha reta, mirando o grupo de jovens que tocavam algo inaudível para ele.

Quando se deu conta, a estranha estava parada de pé ao seu lado, olhando na mesma direção. Observou-a com o canto do olho, receando olhar diretamente, mas todo seu cuidado foi em vão.

— Eles fazem um som interessante, você não acha? — perguntou a estranha.

Vicente deixou transparecer que não estava ouvindo, então ela gritou alto a mesma pergunta, chamando a atenção de quem passava por perto deles. Isso o fez ficar de pé, olhando diretamente para ela com ar de indignação.

— Eles fazem um som interessante, você não acha? — perguntou novamente a estranha, agora numa voz baixa e suave, fazendo um olhar inocente.

— Perdoe-me, eu a conheço? — perguntou Vicente, deixando clara sua irritação. — Se puder me dar licença, estou esperando uma pessoa.

— Ah, perdoe-me… Onde estão meus modos? Meu nome é Angela e, mesmo ainda sem saber, você já esperava por mim — disse isto estendendo a mão para cumprimentá-lo, deixando à mostra as longas unhas pintadas nem vermelho tão intenso quanto seu sobretudo.

— Você com certeza deve estar me confundindo com outra pessoa — disse Vicente, buscando não pensar noutra possibilidade, a não ser no engano da estranha.

— Seu nome é Vince? — disse a estanha, apontando-lhe o dedo e fazendo cara de dúvida.

— Sim… quero dizer, não, meu nome é Vicente — gaguejou vacilante.

— Então estou certa. Khalil é muito bom em descrever as pessoas e, devo lhe dizer — disse se aproximando como se fosse lhe contar um segredo — ele sabia até a roupa que você estaria usando nesta manhã, não é engraçado — e soltou uma risada ruidosa, chamando a atenção de quem passava por perto, mais uma vez.

— Só pode ser um engano — falou Vicente, transtornado.

— Eu sinto muito — disse Angela, com uma fisionomia serena. — Khalil não poderá estar aqui. Surgiu alguma situação delicada noutro lugar. Mas ele me pediu que viesse e fosse sua anfitriã… Então, aqui estou, à sua inteira disposição — disse abrindo os braços numa cena exagerada. — Pronto para começar?

— Precisamos comprar os ingressos, não? — perguntou timidamente, sem saber se era ou não este o procedimento para se ter acesso ao museu, pois nunca havia estado lá.

— Hoje não — respondeu Angela, enquanto mexia em sua bolsa.

Pararam por alguns instantes na fila à porta, formada apenas por força do procedimento de segurança e das orientações que eram dadas aos visitantes. Vicente viu as pessoas entregando seus ingressos e sendo conduzidas para deixar suas bolsas no guarda-volumes. Olhou para a bolsa de Angela e achou graça, imaginando se ela conseguiria colocá-la num dos cubículos.

Quando chegou a vez deles algo aconteceu… Houve uma troca de olhares entre Angela e a mulher uniformizada junto à porta. Ambas sorriram, então, após um único gesto da outra, os dois entraram, sem ingressos, sem vistoria da gigantesca bolsa, que também não teve de ser deixada para trás.

— O que aconteceu ali? — quis saber Vicente.

— Ali onde? — Perguntou distraída Angela, sem sequer olhar para trás.

— Ali, na entrada. Por que sua bolsa tem livre acesso ao museu, enquanto todas as outras tem de ficar no guarda-volume? E por que não tivemos de entregar os ingressos? E, afinal de contas, o que foi aquele sorriso?

— Vince, eu praticamente vivo neste museu — explicou Angela, pacientemente, agora olhando nos olhos de Vicente. — Realizo diversos projetos de curadoria em exposições e já tive algumas peças minhas expostas aqui num projeto para jovens artistas da cidade. Além do mais é comum que eu seja anfitriã dos convidados de Khalil.

Os “convidados de Khalil”… As palavras ficaram ressoando na cabeça de Vicente. “Então haviam outras pessoas? Com que propósito?” As perguntas lhe saltavam à mente, mas não ganhavam sua voz. Angela o conduziu pelos corredores com passos suaves e firmes ao mesmo tempo, como quem se sente à vontade cercada por arte. Enquanto ele próprio começava a se sentir estranho, um invasor.

Achou estranha a indiferença de Angela às peças pelas quais passavam. Talvez ela já conhecesse aquelas obras, mas para onde o levava? A dúvida foi respondida quando se viu diante de uma enorme parede onde havia a figura gigante de uma bailarina em tons negros. Sobre ela um nome e uma frase que resumia toda a proposta da exposição: “Degas, poesia geral da ação”.

— Chegamos — disse Angela, num tom solene. — Khalil propôs que começássemos por esta exposição.

Vicente percebeu um brilho no olhar de Angela, quando ela observava atentamente a parede, aproximando a mão -se da mão da bailarina para tocá-la. Quando o fez, virou-se para ele sorrindo.

— Se você estiver pronto, será uma honra lhe introduzir ao universo do movimento de Degas. — As palavras solenes ganhavam um tom de cumplicidade quase juvenil. — Venha Vince…

Angela lhe estendeu o braço, tomando-o pela mão e o puxando para dentro da sala, como se fossem dois adolescentes prontos a desvendar um mistério.

 

Continua…

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